Operação Vectura Corrupta mira suposta infiltração do PCC no transporte público de São Paulo
Investigação aponta possível atuação da facção em empresas de ônibus, contratos públicos e financiamento eleitoral; ex-presidente da Câmara Milton Leite está entre os alvos
Uma nova operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil colocou novamente o sistema de transporte coletivo da capital paulista no centro de uma investigação sobre a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Deflagrada nesta quinta-feira (17), a Operação Vectura Corrupta apura uma suposta estrutura montada para permitir a infiltração da organização criminosa em empresas de ônibus e em áreas do poder público.
Entre os principais alvos está o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil), contra quem foi expedido mandado de prisão temporária. Segundo a investigação, ele seria citado como responsável direto por operações de empresas supostamente controladas pelo PCC e apontado por policiais como dono de fato da Transwolff. Leite nega as acusações e afirma que não é proprietário de empresa de ônibus.
Investigação envolve empresas de ônibus
De acordo com o MP-SP, o esquema investigado poderia alcançar 12 das 22 empresas de transporte coletivo que atuam na cidade de São Paulo.
A apuração aponta que pessoas que seriam laranjas ou interlocutores do PCC teriam assumido posições dentro de empresas do setor, permitindo à organização movimentar dinheiro, negociar veículos, receber comissões e buscar influência sobre contratos públicos.
Sete empresas são citadas nominalmente pelo Ministério Público: A2 Transportes, Translider, Transbellaflor, Otratur, ABC Plus Transportes, Transwolff e Viação Bom Jesus.
A Transwolff já havia sido alvo da Operação Fim da Linha, em 2024, investigação que levou à intervenção da Prefeitura de São Paulo na empresa.
Milton Leite é um dos principais alvos
A decisão judicial que autorizou a operação afirma que Milton Leite aparece diversas vezes nos elementos reunidos pela investigação.
O documento também registra declarações de policiais que o apontariam como proprietário de fato da Transwolff.
Leite, entretanto, contesta as acusações. Em declaração ao UOL, afirmou que não é dono de empresa de ônibus e que sua atuação junto à SPTrans ocorreu por causa de uma greve, durante a gestão do então prefeito Bruno Covas.
Ele também declarou que pretende se apresentar às autoridades e que considera as acusações infundadas.
Ex-presidente da SPTrans também foi preso
Outro nome de destaque na operação é Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans.
Segundo a investigação, Oliveira teria se encontrado com um intermediário apontado como integrante do PCC enquanto ocupava o comando da empresa pública, para tratar de interesses relacionados ao setor de transporte.
Oliveira foi preso durante a operação. Sua defesa afirma que não teve acesso aos autos que fundamentaram a prisão e ressalta que ele não possui antecedentes criminais.
Dinheiro do crime e financiamento político
Além do transporte coletivo, a investigação aponta uma possível utilização das empresas para movimentação e lavagem de dinheiro.
Segundo o MP-SP, a negociação de ônibus e outras operações comerciais poderiam ter sido utilizadas para movimentar recursos de origem criminosa.
A investigação também cita possível financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro ilícito. Um dos nomes mencionados é Danilo Marco Morgado Silva, candidato a deputado estadual pelo PL e também alvo da operação.
Operação é desdobramento de investigação anterior
A Vectura Corrupta é apresentada pelas autoridades como desdobramento da Operação Dercúrio, realizada em agosto de 2024 para investigar um esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao tráfico de drogas.
Durante aquela investigação, foram identificadas estruturas de comunicação utilizadas por integrantes do PCC, inclusive núcleos denominados “Sintonia Restrita” e “Sintonia dos Gravatas”.
A análise de mensagens, documentos, informações financeiras e dados extraídos de aparelhos apreendidos teria permitido aos investigadores avançar sobre as relações entre integrantes da organização criminosa, empresários e agentes ligados ao setor de transporte.
Prefeitura avalia novas medidas
Diante das novas suspeitas, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, determinou a criação de um grupo formado por representantes da Procuradoria-Geral do Município, Controladoria-Geral do Município, SPTrans e Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte.
O grupo deverá analisar contratos e documentos relacionados às empresas investigadas.
A Prefeitura também informou que avaliará a possibilidade de intervenção na A2 Transportes, empresa que opera linhas na zona sul da capital.
O que está sendo investigado
A operação não significa, por si só, que todos os investigados tenham sido condenados ou que todas as suspeitas já estejam comprovadas judicialmente.
O que existe neste momento é uma investigação criminal baseada, segundo as autoridades, em documentos, diálogos, dados financeiros e outros elementos de prova. Os investigados têm direito à defesa e à presunção de inocência.
A operação busca esclarecer até que ponto o PCC teria conseguido se infiltrar no sistema de transporte coletivo de São Paulo, quais empresas teriam sido utilizadas e se houve participação ou colaboração de empresários, agentes públicos e políticos.
Até o início da tarde desta quinta-feira, ao menos dez pessoas haviam sido presas, enquanto outros mandados permaneciam em cumprimento. Milton Leite ainda não havia sido localizado e afirmou que se apresentaria às autoridades.




